segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

Época de exames

Estou de momento em época de exames e portento (como já estão habituados) ficarei mais tempo sem escrever um post. De qulquer forma se tiver algum tempo irei escrever algo. Já não escrevo há algum tempo e tenho muita coisa para dizer.

P.S- Peço desculpa a quem não respondi nos comentários. Sei que já passou muito tempo mas tentarei responder logo que possa.

domingo, 11 de Outubro de 2009

Non Stop

Olá a todos.
Aqui estou para desabafar algo que tenho reparado em muitas férias de verão mas nunca dei muita importância até este ano...
Era muito normal, nos anos em que ainda não tinha descoberto a minha "cura", passar as férias de verão fechada em casa. Se saía era porque os meus pais também o faziam.
No entanto, após a tal mudança, notei em algo... que passo a explicar.
Nas férias de verão em que conheci o meu namorado, as minhas amigas da altura encontravam-se de férias com a família (como é suposto).
Eu queria estar com o meu namorado... Mas tal tornou-se uma tarefa árdua e sofredora porque os meus pais eram contra o namoro. Bem...Melhor dizendo, o meu pai era contra o meu namoro, mas a minha mãe com o medo ia atrás.
Por favor não fiquem a pensar que eu estava a fazer algo de rebelde, como namorar com o "xunga" da esquina. O meu namorado tem tudo o que uns pais possam querer para a sua filha (mesmo os mais materialistas e defensores do status como eram os meus). O meu pai simplesmente é obcecado pela família e quer ela toda fechada e dedicada a ele. Mas pronto...isso não é para aqui chamado e confesso ter uma certa dificuldade de falar disto sem me doer cá dentro.
O que interessa é que eu, pela primeira vez em toda a minha vida de aspie, queria sair e divertir-me. Mas não me deixaram...
Passou uma semana... Não houve nada de especial a não ser uma tristeza enorme e sensação de pássaro enjaulado.
Segunda semana... senti uma mudança acentuada no meu comportamento.
Já não falava com tanta fluência, as palavras custavam a sair, engasgava-me, confundia-me.Parecia que qualquer coisa em mim estava a fazer o que não conseguia. Parecia que estava a forçar qualquer coisa a fazer algo...sentia aquela forma de falar "desengonçada" a reasurgir.Resumindo: estava a retroceder a nível social.
Não me apercebi disso logo nessas férias tal como disse. Isto porque quando voltava ao ano lectivo eu ganhava outra vez o "ritmo".
Mas passou mais umas férias (com ainda problemas de ver o namorado) e nestas férias (onde já não houve problemas) eu não me senti assim porque convivi com pessoas.
Foi então que cheguei a esta conclusão... Eu não posso ficar um grande período de tempo sem falar com alguém (no meu caso mais de duas semanas já começa a notar-se) sem conviver.
Não é grande espanto porque, como todos nós sabemos, o Asperger não tem cura. Mas é engraçado reparar que mesmo quem está "curado" (daí eu por as aspas) ter sempre de "trabalhar" a sua "cura"...
É como se a nossa sociabilidade fosse um músculo: se não o exercitarmos atrofia.
Eu partilho isto convosco porque é importante estar atento como eu estive. Mesmo que um aspie se "cure" não se pode dar á liberdade de ficar isolado como uma pessoa normal. Para uma pessoa normal isso não a afecta. Para nós sim.
Portanto...Não é por termos a doença controlada que podemos descansar. É non stop. Temos que manter tudo o que conseguirmos.
Se virem que estão muitas horas sem falar por dia ou estão isolados no vosso quarto... saiam um pouco e falem com os vossos pais.
Para os pais: tentem ao máximo fazer o vosso filho falar regularmente. É importante ele manter o ritmo de uma conversa.
Bem... agora tenho mesmo de sair do meu PC porque o meu gato está com uma ciumeira horrível lol.
Bjs

Em memória a um vencedor

Quero prestar neste triste mês uma pequena homenagem ao meu primo Rafael, que morreu de cancro com apenas 11 anos...
Nunca tive oportunidade de o conhecer bem devido a parvas desavenças familiares. E confesso que não fui capaz de o acompanhar na sua luta porque na altura era fraca e não conseguia suportar o sofrimento de uma criança...
Eu lamento imenso isso...
De qualquer forma quero que saibas Rafael que sempre estive do teu lado e que uma parte do desejo de ser médica é por tua causa... e por estar farta de ver a minha família a sucumbir de tantas doenças e eu não poder fazer nada.
Tu és um vencedor porque lutas-te corajosamente contra uma doença... eu sei o que é... e nem imagino o que sofreste pela tua.
És mais uma prova que com força tudo se consegue. Tu podes ter perdido a batalha, mas a mensagem cá fica entre nós.
Até sempre

http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?pagURL=arquivo&tvprog=1436&idpod=18051&formato=flv&pag=arquivo&pagina=3&data_inicio=&data_fim=&prog=1436&quantos=10&escolha=

terça-feira, 8 de Setembro de 2009

Reviravoltas na vida e coisas em mão...

Olá a todos.
Em primeiro lugar peço desculpa por toda a minha inactividade.
A minha cabeça está literalmente noutro lugar...e ando numa fase que tento responder mais a perguntas sobre mim mesma do que propriamente as de outras pessoas.
Eu descobri que estou no lugar errado (a nível académico). A porta para a realização de um sonho antigo abriu-se e o meu coração falou mais alto.
Conto-vos um pouco dessa história.
Eu sempre quis ir para medicina. Mas a minha auto-estima sempre foi muito baixa (por motivos sociais como todos sabem) e isso reflectia-se na minha motivação académica. Sempre fui uma aluna mediana mas também sempre pensei para mim mesma que, quando chegasse ao secundário, as coisas iriam melhorar. Já estava direccionada para a minha área (segundo os testes psico-técnicos e a opinião de muita gente).
Mas como em muita coisa da minha vida as certezas foram destruídas pela maldição desta doença.
Começou logo no inicio do 10º ano quando o professor perguntou o que eu queria ser. Eu disse médica. A turma riu-se.
Devido a esta doença ninguém acreditava nas minhas capacidades. Associavam sempre a um atraso mental. Os professores humilhavam-me na aula, os alunos fora dela.
Tive uma tal "especial" professora que me dizia em todas as aulas que eu nunca teria cabeça para medicina.
E eu rendida á minha doença, rendida ao facto de estar revoltada comigo mesma por ser diferente, achei que todos tinham razão... que eu nunca conseguiria ser médica. Que na verdade até seria uma atrasada mental.
E tudo isto reflectiu-se mais uma vez nas notas. Deixei de me esforçar para medicina...dizia aos meus pais que ainda estava a tentar entrar. Mas a verdade é que me rendera.
Cheguei ao 12º e a minha média não dava definitivamente para medicina (já o esperava). Foi aí que descobri a psicologia.
Tinha boas notas a essa disciplina, o professor elogiava-me em todas as aulas, os alunos pediam-me ajuda. Foi a única disciplina eu que eu me senti realmente bem. Que era capaz e que as pessoas viam isso. Pensei...porque não? Talvez seja mesmo boa. Convenci-me a mim mesma que era boa a psicologia, convenci as pessoas também.
Só os meus pais é que acharam estranho esta mudança repentina depois de 7 anos a desejar medicina. E tinham razão...
E pronto... cheguei ao 2º ano de psicologia e vi que não estou onde quero estar.O curso foi uma grande desilusão. Desisti de um sonho por não ter tido amor próprio e ter acreditado nas pessoas que me queriam mal.
Mas agora que mudei vejo muito mais além. E agora que gosto de mim mesma já não oiço a quem mal me deseja. Sei que sou capaz de tudo. Tanto ou melhor que qualquer pessoa. E vou lutar por esse sonho.
Peço desculpa mais uma vez pela ausência, mas pela história que aqui vos conto agora sabem que ando a estudar para entrar no que quero.

P.S- Ás pessoas que me mandaram posts há quase um mês já têm as suas dúvidas respondidas.

Obrigada a todos por continuarem a vir aqui.

quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Blog em stand by

Como já têm reparado, já há uns meses que não escrevo aqui nada.
Como me mandaram um comentário para aqui, lembrei-me de avisar (porque por mim até já me tinha esquecido que tenho blog lol) que este blog estará em stand by por tempo indefinido. Isto porque, como já devem calcular, não disponho nem de tempo nem de cabeça para escrever aqui (nem para me mexer quanto mais) devido ao meu trabalho na faculdade, que está cada vez mais monstruoso e cresce em catadupa.
De qualquer forma responderei a qualquer comentário que deixem aqui. Peço é compreensão pela demora da resposta.
Beijos

domingo, 25 de Janeiro de 2009

O mundo feminino


Olá a todos....
Arranjei tempo (estou mais aliviada) para escrever um post.
Espero não ofender todas as raparigas ou mulheres que lerem isto. Não é a minha intenção, simplesmente é como me sinto, é o que acho, é o que vejo...
Tudo o que escrevo aqui é para poder ajudar alguém. E tendo em conta que é muito raro uma rapariga ter Asperger, então espero ajudar a minoria.
A maioria do sexo feminino vai discordar com o que irei dizer. É normalíssimo, é o vosso mundo...
Mas a verdade é que eu... não o entendo!!
Eu basicamente não me comporto como uma rapariga na maioria das coisas. Não sou maria - rapaz porque me arranjo de forma bastante feminina (mas no entanto... diferente de como as raparigas se vestem hoje em dia). Simplesmente não tenho a fragilidade, os interesses, os gostos, as conversas...
Na verdade acho o sexo feminino cada vez mais ridículo... Eu sei estão chocadas. Mas eu vou explicar o porquê de dizer isto.
Em primeiro lugar... as mulheres são falsas. Mesmo com as melhores amigas. Eu estou numa faculdade praticamente de mulheres e é horrível! Puro veneno... são como cobras que atacam mal vêem qualquer desgraçada a virar as costas. Eu ás vezes tenho receio de as minhas amigas fazerem o mesmo (porque já muitas fizeram). Mas com os anos já tenho prática em escolher.... espero mesmo que tenha...
Depois são umas desesperadas do pior! Será que alguém me consegue responder a isto: Uma mulher não consegue viver sem um homem em volta dela?? Olhem que eu acredito cada vez mais que não.
Passam a vida a falar de que precisam de um namorado como se disso dependesse a sua personalidade. Já vi até umas que ficaram deprimidas... Credo! Não existe auto-estima neste mundo? Eu acho que uma mulher deve ser segura de si e independente para conquistar um homem. Deve ter uma personalidade forte e formada. Mas não... estas raparigas de hoje em dia procuram um homem para terem a sua personalidade formada.
E depois de terem o "sagrado" namorado o que vejo elas a fazerem? A sufoca-los com a sua falta de auto-estima. Passam a vida "grudadas" neles a pedir atenção e até na cara está estampado "Quero mimos! Quero mimos!". Até a mim sufoca a olhar...
Não há quem entenda se elas namoram com os namorados ou as amigas. Sim, porque estas amizades femininas fazem-me uma confusão .... sentam-se ao colo uma das outras, chamam à melhor amiga de "amor", fazem juras que mais parecem juras de amor, andam de mãos dadas, e até mesmo à idade adulta enfiam-se debaixo dos lençóis a falarem lá das suas fofoquices (que parece ser o único tema que a mulher consegue ter).
O tema de conversa é outra coisa que me irrita... vai desde a vida das outras pessoas (para dizer mal), até ás futilidades (roupa e maquilhagem), para o assunto preferido: rapazes!
Temas além disso... vida além disso. Nada!
A fragilidade é algo que foi sempre atribuído á mulher e ela parece que não se quer livrar disso. Se há coisa que vejo quando uma mulher tem um problema é chorar. Acho que chora mais do que se mexe. Eu também choro... mas o meu choro é do esforço das minhas acções e não do problema que estou a ter. Acho que deviam ser mais resistentes e não serem sempre as "que são salvas".
Depois tudo na mulher (mas mesmo tudo!) parece que é feito para chamar á atenção. Desde a forma exagerada de se vestirem (ganha a que estiver mais descascada e com mais acessórios a fazer barulho) até á voz. A sério... expliquem-me o que se passa com as raparigas de hoje em dia que estão constantemente a competir com a que fala mais alto e esganiçadamente. Até a rirem-se são exageradas. Isto é tudo para olharem para elas? Olhem eu só consigo é tapar os ouvidos...
A inteligência também não é nada que se destaque... Pudera! A passar a vida a falar de marcas e homens o que querem?? Aquilo que vejo é que a futilidade leva mesmo á burrice. Nem vos conto as respostas que já ouvi de cada rapariga.... é de levar ás lágrimas.
Bem não entendo e não me vejo a entender... É como vejo a mulher. E acho que os séculos e séculos que passaram a ser ultrapassadas pelos homens fizeram-lhes mal. Há grandes mulheres, sei disso claro! Mas a maioria não joga com a inteligência mas sim com a imagem...
Eu não sou assim e não quero pertencer a esse mundo de que desgosto até bastante. Felizmente tenho amigas de quem gosto muito de falar. Falamos de temas que nos fazem pensar, puxamos pela mente, vamos mais além. Isto porque elas são aquela excepção que lá se encontra. Gosto disso e desde já agradeço-lhes as nossas conversas que me aliviam bastante! Obrigada Ana, Daniela, Elsa, Inês, Joana M., Joana C., Mariana e Sara. E claro, mesmo apesar de não ser rapariga lol , ao meu namorado que é o alívio dos alívios lol.

quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

Frustação...

Olá a todos.
Tenho estado muito ocupada porque entrei agora na época de exames e se vos contasse o que tenho de fazer ficavam de cabelos brancos. Enfim...
Encontrei tempo para vos contar um pequeno episódio que aconteceu ontem numa aula.
Ao estar em Psicologia, é óbvio que o meu síndrome venha á baila em aulas. Eu tenho uma cadeira, chamada de Introdução á Psicologia do Desenvolvimento, e visto que o Asperger é essencialmente um problema de desenvolvimento, mais probabilidades existem de se falar dele nas aulas.
Ontem estava na aula prática desta cadeira e era a apresentação do último trabalho do semestre sobre o desenvolvimento sócio-emocional da criança (já estão a ver não é?).
A professora mencionou o caso de uma criança que ela teve no consultório que tem Asperger.
Só que ela não distingue Asperger de autismo. Ela falou de uma forma mesmo desagradada pelo facto de terem dado o nome de Asperger a este síndrome. Para ela isto é autismo puro e as pessoas puseram este nome para nada.
O que aconteceu é que eu tive uma vontade enorme de lhe dizer: Não! Há diferenças!
Mas não tive coragem...
Não sei porquê... Eu conto a todas as minhas amigas e colegas sobre o meu síndrome. Qual é o meu problema de dizer a uma professora que sou aspie? Será que tenho medo que ela se ponha interessada a analisar-me?
Não sei sinceramente....
Tenho a sensação que, por vezes parecemos uns "bichos de circo" para as pessoas.
Já houve muitas vezes em que disse que era aspie e as pessoas começaram a olhar-me constantemente de uma forma apreensiva, como se estivesse à espera que eu tivesse algum ataque neurótico e saltasse para cima da mesa.
Também já me aconteceu contar e as pessoas olharem-me de forma curiosa e expectante, à que eu fizesse alguma "habilidade": como, por exemplo, falar sem parar da minha "área obsessão".
Talvez seja por isso.... não sei.
Só sei que jurei uma coisa a partir de ontem.
A partir de agora, se algum professor meu falar do Asperger eu direi que tenho sem problemas...
Mesmo que a turma se vire toda na minha direcção. Não é nada a que eu já não esteja habituada.

segunda-feira, 24 de Novembro de 2008

Respostas Dadas!

Olá a todos!
Peço muitíssima desculpa pela demora. Infelizmente nestes dias andei muito ocupada e tive muitos problemas a nível pessoal.
As respostas aos vossos comentários ( os que não tinham resposta) estão dadas....
Peço desculpa pelo incómodo.
Voltarei em breve com um novo post...
Preciso só que a minha vida acalme um pouco...

terça-feira, 11 de Novembro de 2008

Pedido de desculpas

Olá a todos.
Peço imensa desculpa por ainda não ter respondido aos vossos comentários. Eu estou a transbordar de trabalho e tenho de ter tudo feito para a semana.
Peço a quem comentou no blog este mês e ainda não teve resposta que passe cá para o final da semana que vem que terão as suas respostas.
Peço desculpa mais uma vez.
Até para a semana!

segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

A minha breve história


Olá a todos... Este texto foi feito para alguém que mo pediu. Desde já deixo o meu agradecimento á Marta pela simpatia. Mas eu decidi mostra-lo a vocês todos. De facto chorei e ri ao escrever isto. Relembrei-me de coisas que ainda me atormentam. O único objectivo para o por aqui é para conhecerem melhor o meu percurso... É um pouco longo... peço desculpa por isso...

(...)

Esta é uma breve história sobre mim. Breve porque tenho tanto para contar que era preciso mais de um dia a falar…

Só fui diagnosticada aos 14 anos, mas sempre soube que havia algo de errado comigo. A princípio insistia para mim mesma que era só timidez, mas depressa essa utopia desapareceu porque as pessoas não viam as coisas como eu via, não pensavam como eu, nem muito menos entendiam o que eu queria dizer.

Desde muito pequena eu não gostava de falar nem de estar com as pessoas.

As pessoas achavam-me uma graça enorme. Como o meu cabelo é loiro e encaracolado, olhos verdes e faces rosadas e cheias, muita gente achava-me uma boneca de porcelana (e ainda acha) e vinham ter comigo a tentarem mexer-me. Eu não deixava gritando, batendo e tentando morder.

Não gostava de brincar com as crianças porque não achava piada aos gostos delas. Com 2/3 anos eu já me interessava por enciclopédias e chateava constantemente a minha mãe para me responder como funcionavam os planetas e o universo. Chegava mesmo a berrar com ela chamando-a "burra" quando ela já não me sabia responder.

Os meus brinquedos eram altamente organizados. Estando as Barbies sentadas numa ordem própria e ai que alguém se atrevesse a mexer naquela ordem. Eu berrava e esperneava descontrolada como se tivessem cometido o maior crime de todos os tempos.

Para além disso os meus brinquedos estavam intactos, como novos e eu todos os dias observava-os para ver se alguém lhes tinha mexido. A minha irmã mais nova como não tinha estima nenhuma pelos dela, estragava os seus e depois entrava no meu quarto estragando os meus. Eu entrava em extrema fúria e corria atrás dela para lhe bater, chegando muitas vezes a fazê-lo mesmo.

Eu até batia á minha irmã por ela me chatear. Ela queria brincar sempre comigo e eu não queria, então ela puxava o meu braço insistindo e eu dava-lhe logo uma bofetada.

Quando entrei para a pré-escola gritava desconsolada porque não queria ir para ao pé das crianças. Ninguém brincava comigo e eu roubava os bonecos da escola como um tipo de vingança a eles.

Quando entrei na 1ª classe as coisas ainda pioraram mais. Eu por um lado estava contente porque eu desejava muito saber ler (com 2 anos já escrevia o meu nome). Eu queria ler sozinha as histórias dos livros e não ter ninguém a fazê-lo por mim. Mas por outro lado o confronto com a vida social estava mais eminente.

Lembro-me de uma vez em que tivemos de usar canetas de filtro num exercício. Um rapaz que se sentava a meu lado pediu-me emprestadas as canetas que estavam num estojo á parte (eu estava a usar outras).

Eu: Não! Estas canetas são para casa para os meus desenhos!

Ele: Mas tu estás a usar as desse estojo, empresta-me as dos outros que não estás a usar.

Eu: Não! São de casa!

Ele: Não há canetas para casa!

Eu: Para mim há!

Eu adorava desenhar, quer dizer adoro…

Era nos meus desenhos e na minha imaginação que eu refugiava-me no meu mundo.

Ninguém sabia se eu estava feliz ou triste, o que eu queria ou não, o que se estava a passar na minha cabeça. A minha expressão facial era sempre a mesma. Nunca mudava. O meu ar era distante e a minha cara apática. Eu não me ria de nada, quase nem chorava (mesmo quando me aleijava). Não tinha expressão facial…

Minha mãe: Parabéns Carla pela nota do teste. Foi muito boa.

Eu: ok (apática)

Mãe: Porque ficaste assim? Querias mais?

Eu: Não sei (apática)

Por isso os meus desenhos eram a minha única expressividade. O problema é que mesmo olhando para eles as pessoas eram induzidas em erro porque eu desenhava o contrário do que estava a sentir.

Eu fui muito boa aluna no 1º ano. Como queria saber ler empenhei-me muito. Gostava de ir á escola (se não fosse por ter de socializar com os colegas gostaria ainda mais). Mas eu tive logo de início dificuldades com a matemática. No 2º ano a professora colocou-me numa mesa no fundo da sala, sozinha e afastada da turma porque eu não tinha sido boa a matemática. Isso traumatizou-me muito. A partir daí não só bloqueei ainda mais em matemática até ao 12º ano como também passei a detestar a escola.

Até ao 4º ano nunca tive amigos. A minha tia trabalhava perto da minha escola e vinha ter comigo nos intervalos. Eu corria até ela. Era a minha parte favorita do dia. Ela própria descreve que quando me via lá estava eu encostada a uma parede sozinha.

No final do 4º ano os meus pais não sabiam onde pôr-me a mim e á minha irmã. Porque a escola era só até ao 4º ano. Por conselho de uns clientes amigos, os meus pais colocaram-me num colégio privado católico. E o meu pesadelo começou…

Se eu tivesse de aconselhar os pais de aspies onde por a estudar os filhos dizia-lhes para pensarem bem ou verem bem os colégios antes de os porem num.

O meu colégio tinha regras rígidas. Isso para mim não era incómodo. Aliás até era agradável porque eu gosto de disciplina na minha vida e ainda mais de organização. O problema era as pessoas… os alunos vinham de gente de "posses" e "pseudo-ricos" a maioria eram filhos das chamadas "tias". Havia filhos de gente famosa lá e tudo.

Mas para mim foi das piores experiências que tive. As pessoas eram etiquetadas por tudo e por nada e eu mal reparei nisso vi logo que ia ser uma vítima predilecta devido ao meu feitio.

Davam muito importância ás marcas das roupas e do material. Desde crianças já comparavam as "posses" uns dos outros. Eram crianças snobs, arrogantes, cínicas, hipócritas, cheias de manias de superioridades.

Como é óbvio fui literalmente posta de parte mal entrei.

Chorava quando chegava a casa e não queria voltar para lá. É que eles não só eram crianças do mais pobre que há como também eram más para mim.

Muitas das raparigas deixaram-me entrar no grupo delas só para me humilhar. Lembro que nas brincadeiras das famílias eu era sempre a empregada para gritarem comigo, mandarem-me para o chão enquanto se riam a que fazia de mãe gritava que o meu uniforme estava sujo.

Eu submetia-me aquela humilhação porque lhes dava razão…. Eu era estranha… e se queria brincar com elas tinha de me submeter aquilo… se calhar… podiam vir a gostar de mim…

Mas isso nunca aconteceu. Nunca ninguém gostou de mim. Há medida que o tempo passou mais mal tratada fui… eu estava a entrar em depressão. Mas ninguém sabia de nada…. Eu não dizia nada a ninguém… sofria sozinha. Para quê? Para quê falar? Ninguém me entendia.

Muitas vezes tentei falar com a minha mãe mas não dava porque ela não percebia nada e confesso que muitas vezes não tinha paciência para me ouvir. Com o meu pai… nem falava. Ele tem Asperger e falar com ele ainda era pior. Nós os dois chocamos muito a nível de feitio.

Chegou então a adolescência…

Os meus dias eram um suplicio chorava silenciosamente todos os dias.

Sim… desejei morrer… e não foi poucas vezes. Porque é que ninguém gostava de mim? Eu sabia que não era normal mas achava que também ninguém se esforçava para me entender…

Parecia que o mundo me dizia que eu é que era o problema portanto que o resolvesse sozinha. Mas eu não sabia! Não sabia o que tinha! Não sabia o que se passava comigo… eu só queria ser normal…

Eu chegava a casa e fechava-me no quarto. Fechava as janelas e a porta e ficava ali submersa na escuridão… assim não havia nada á minha volta…não via pessoas, não via o meu quarto… nada existia…era aquela escuridão que me tapava o mundo que eu não queria ver. E eu queria estar assim para sempre.

Muitas vezes bati em mim mesma em ataques de ódio a mim própria. Tinha vontade de partir o espelho quando olhava para ele. " És tão feia…" dizia para mim mesma "Porque é que és tão anormal! Porquê?"

Á noite rezava para Deus me tornar normal… Com os tempos deixei de acreditar Nele porque ele não concedeu o meu desejo. Hoje sei que ele não podia curar-me porque não há cura mas deu-me outra coisa…

Nesta altura começam os namoros. Eu sempre delirei com os contos de fadas. Apesar de sentir que nenhum rapaz iria gostar de mim por eu ser como era, sonhava um dia viver um amor como nos filmes. Não achava piada nenhuma quando as minhas colegas punham-se a falar de rapazes. Elas perguntavam-me coisas e eu nunca respondia.

Eu queria o homem dos meus sonhos. Mas não iria confessar isso a elas nunca entenderiam. Por outro lado sentia uma certa inveja por aquelas que tinham namorado. Só por o terem porque não era aquele tipo de namoro que eu sonhava.

Eu estava numa depressão profunda. Nos intervalos escondia-me em sítios isolados e se alguém aparecesse fingia que estava a falar ao telemóvel. Se aparecesse alguém da minha turma ou professor fugia para outro sítio… não queria que ninguém visse a solidão que era a minha vida… não queria que tivessem pena de mim e começassem a fazer perguntas. Não queria falar. Queria estar calada. Ás vezes dava-me vontade de chorar por estarem a fazer-me falar demais.

Muitos rapazes tentaram aproximar-se de mim. Diziam ás minhas colegas que achavam-me bonita e misteriosa. Alguns deles vinham ter comigo e diziam mesmo que eu era bonita. Eu não reagia. Eles perplexos insistiam e eu aí gritava para se irem embora.

Eu não me arrependia. Nessa altura tinha criado um ódio particular aos homens porque via na televisão como eles eram cruéis para as mulheres, como deixavam de gostar delas facilmente, eram traidores. Já tinha posto na cabeça que era um sonho o tipo de homem que eu queria. Não queria saber deles. Para mim eles eram cruéis.

Eu sou muito exigente com as pessoas. Para mim têm de ganhar a minha confiança senão nada feito… Mas na minha adolescência eu não me podia dar ao luxo de ser assim. Aceitava qualquer pessoa para não estar só. E todas elas só vinham ter comigo para mandarem em mim. Lembro-me que elas pediam para eu fazer-lhes favores como TPCs, ir ter com um rapaz e dizer uma coisa enquanto elas riam-se lá atrás… e eu fazia tudo. Eu sabia que estava a ser humilhada… chorava tanto.

A minha mãe descobriu o Asperger através da Net e levou-me a um especialista. O síndrome nessa altura era muito desconhecido mas como ela associou-me ás características quis confirmar. Eu quando fui á consulta não sabia da suspeita da minha mãe. Mas eu já tinha ido a muitos psicólogos… estava com esperança… talvez desta vez me dissessem o que eu tinha e finalmente eu mudasse.

E foi o que aconteceu. A minha mãe falou sozinha com o doutor primeiro e depois chamou-me. A única coisa de que me lembro ele pedir foi para eu andar para um lado e outro da sala e mostrar-me uns papeis que não me lembro o que eram mas era para responder. Eu estava assustada e apreensiva até que ele disse: Carla… Tu tens o Síndrome de Asperger.

Não reagi, como sempre acontecia, fiquei por momentos parada no tempo a pensar o que significava o que ele tinha acabado de dizer… não fazia a mínima ideia do que seria Asperger mas nesse momento nem pensei nisso. Estava a pensar o que significava ter Asperger…

Até que a minha mãe quebrou a minha apatia dizendo: Vá Carla… Pergunta ao doutor o que é o Asperger. “ Que é?” virei-me logo para o doutor.

Á medida que ele foi explicando um alivio percorreu em mim. Sim… eu era tudo aquilo que ele estava a descrever. Finalmente alguém sabia o que eu tinha, quem eu era, porque era assim.

No entanto…

“Carla, um síndrome é algo genético. Nasce contigo e contigo morrerá… O que quero dizer com isto é que o teu problema não tem cura. Nasceste assim”.

Entrei em choque. Fiquei subitamente branca como um cal. Não tinha cura? Não era possível… eu estava tão aliviada por saber o que se passava comigo e afinal não me iria servir de nada. Não tinha cura. Não iria afinal conseguir o que queria.

A minha mãe comunicou á família e ficou a falar e a explicar o assunto o tempo todo. Eu já não a aguentava ouvir… Só queria fugir dali. Para piorar, o meu pai quando ouviu que eu tinha herdado dele recusou essa ideia e disse: “Ela é que tem isso. Eu não!”. Estava sozinha para variar.

Cheguei a casa e fugi logo para o quarto. Ninguém se importou… queriam todos agora falar de mim e comentar as coisas até agora. Se calhar até andaram a comunicar ao resto da família. Não me interessou.

A revolta era tanta, a dor era tanta. Era oficialmente “anormal” e “anormal” seria para o resto da vida. Não haveria nada a fazer…

Comecei a deitar as coisas ao chão num acto de raiva, deixando o meu quarto de pernas para o ar.

O meu síndrome passou a ser “espalhado” pelas pessoas. Os meus colegas souberam pela minha directora de turma e devido á sua má explicação e entoação de ser uma doença mental os meus colegas ainda me trataram pior. Agora sentiam-se mais descansados a chamarem-me nomes, já tinha o alvará para isso… porque para eles era uma doente mental. Olhavam-me de lado, uns com pena, outros com repulsa e falavam comigo como se eu os fosse atacar a qualquer momento. O que falavam nas minhas costas já eu sabia.

Na minha família também toda a gente soube. Uns começaram a tratar como eu fosse um bicho esquisito, outros faziam também aquela cara como quem diz “não liguem aquela pobre alma. A cabeça dela não funciona bem”.

Eu só vi a minha vida a piorar vertiginosamente. Eu andava na rua e cada vez que alguém olhava para mim eu pensei que via que eu tinha Asperger. Era um pouco o complexo de perseguição.

Fiquei cada vez mais mal educada com toda a gente. Só me queria isolar e que me deixassem em paz…

A decadência em que eu estava era enorme…

Com 16 anos de idade nunca tinha andado num transporte público e só de imaginar andar num chorava.

Eu sabia se continuasse assim iria cair na desgraça. Iria acabar sozinha neste mundo. Eu não queria.

Aos 18 anos cheguei ao limite. Estava tão em baixo. Tinha ataques de raiva, ataques de nervosismo, berrava e gritava. Tudo me chateava, a minha vida principalmente. Não tinha motivação para nada e nem queria acordar. Queria que fosse noite a vida toda.

Tinha de parar. Mas o meu neurologista sendo neurologista só se interessava pelos os meus aspectos físicos… portanto nem com ele podia contar.

Então foi aí que iniciei a “cura”. Tive de treinar expressões em espelhos, falar com gente que nem conhecia, andar em autocarros e metros , muitas coisas mais…

Foi tão duro… eu esforçava-me tanto que chorava de nervos. Porque estava a forçar-me aquilo que geneticamente eu não era.

Foi duro… Mas consegui.

Hoje sei tirar partido do meu síndrome. E mais… orgulho-me de ser Asperger…

Gosto do facto de sentir os sentimentos de forma pura e verdadeira, de eu própria ser pura, de não aceitar e não me comportar como os jovens de hoje (que para mim na sua maioria são fúteis), gosto de ser perfeccionista no que faço, gosto de ter a capacidade de saber mais que o normal quando gosto de algum tema, gosto de ter os sentidos mais apurados que o normal (visão, audição e olfacto), gosto de ser organizada mesmo que seja de forma extrema.

Gosto de ver o mundo há minha maneira… porque tenho consciência do mundo em que estou… mas é o facto de não aceitar muita coisa nele que me faz ser diferente. Mas eu gosto desta diferença porque acho que é uma diferença que poderia fazer falta a muita gente.